Segunda-feira, 18 de novembro de 2024.
Bom dia, meu nome é Gladsthoni da Silva, conhecido como Tony do mel. Tenho 51 anos, trabalhei na emancipação da cidade com o Sr Juca Borges, o primeiro prefeito, e claro, sempre na importância das abelhinhas e a consciência que o ser humano precisa ter com o mesmo.
Sou natural de Porto Alegre, mas vim para cá aos 13 anos de idade, morar em Balneário Gaivota, me casei aos 20 anos já aqui no município. Eu tinha outras formas de serviço, como por exemplo: pinturas, zeladoria de casas, mas sempre visando a apicultura.
Em 1994, me dediquei mais à apicultura, fui deixando as outras profissões, em 2004 comecei me dedicar totalmente à apicultura, trabalho do sistema migratório para São José dos Ausentes, Rio Grande do Sul e em Minas do Leão.
Tenho 1.200 colmeias, colhi muito mel aqui em Arroio do Silva, mas o desmatamento vai chegando, porque aqui tem muito. Aqui a lavoura é de eucalipto e a gente teve que sair, se afastar. Por isso, estamos em Minas do Leão, mas temos que começar aqui na fazenda São Carlos.
Eu faço parte da associação, fundei uma associação aqui no Balneário Arroio do Silva, que não deu muito certo. Acabou se perdendo, a Associação de Balneário Gaivota, em que fui presidente por três mandatos. Hoje ela faz parte da Amesc. Todo o vale Araranguá. Associação um pouco de pessoas de São João do Sul.
Estamos agora no projeto de fazer parte da Cooperativa que a sede fica em Araranguá, para podermos melhorar o nosso preço de venda do mel. Porque sempre ficamos presos às empresas. Sempre fomos a matéria-prima delas e nem sempre somos valorizados. Então acabamos agora vendo a oportunidade de fazer parte da cooperativa. Vai sair o nosso Mel daqui direto para Europa para fora do país sem atravessadores e no mercado interno.
Eu estou há 33 anos como profissional de Apicultura, sempre preocupado com a natureza, porque como disse para a gente ela faz, produz o enxame, alimenta, faz crescer, mas sem natureza, não dá. Se ela se acaba, nada dá certo. Tem que ter a natureza, tem que ter. O homem tem que ter essa visão. E reflorestar e não cortar. Não destruir com queimadas porque se acabar com a natureza acaba com a abelha e a abelha acaba com a polinização, que acaba alimento. É o fim de nós todos, temos que ter essa consciência.
Trabalho muito com escolas, várias vezes aqui na feira de ciências da escola, sempre ajudo as crianças, a mostrar nosso trabalho. Vamos lá mostrar o trabalho das abelhinhas. Nós temos também alguma coisa de abelha e temos também alguma de meliponicultura, com a abelha sem ferrão, que é um hobby e cultivo também, a apis daqui africanizada, mas ela já é adaptada, só que têm vários tipos de flores da natureza que ela não vai e ela nem alcança.
Precisa da Jataí, da Mandaçaia, que é natural do Brasil, Nativa de carro. Procuramos sempre manter o equilíbrio e é uma coisa legal. Essa Nativa, durante muito tempo foi deixada assim de lado por uma questão econômica, mas a vantagem da Nativa é que tu pode ter no quintal da casa pequenininha ela não é agressiva, ela não vai te atacar não.
Tenho percebido que se não incentivar quem crie, vai se acabar, porque o que acontece é que ela é mais difícil de fazer a multiplicação e ela é muito mansa, na natureza eles vão destruir.
Uma outra preocupação nossa na apicultura é o interesse das novas gerações em querer, nós na associação temos conversado, é um pecado que está acontecendo é um pecado, está acabando, não é fácil!
O Chico, que é meu amigo têm dois filhos novos, tinha mil e poucas colmeias lá na casa dele, paradas, porque aqui não tem mais condição e o filho dele procurando emprego e o mais velho dele, que estava ajudando também correndo atrás, porque não tinha o que fazer, era muito pouco para os dois viver. Então ele veio aqui na minha casa sentou na minha mesa e quando contou isso aí para mim.
Eu disse: Não gente! Descobri uma porta para nós então e eu vou abrir essa porta para ti também. Levei ele lá para o Rio Grande do Sul, com o irmão dele e mais um amigo nosso, o Pedro, e fomos todos. Hoje, graças a Deus, ele está com uma base de duas mil colmeias no mato, os dois filhos tocando a apicultura, ele já está meio que abandonando e largando para os dois.
É isso que eu acho bacana. Eu acho que é o incentivo de repente, talvez também já faça isso, não sei se é o certo, mas imagina que sim. E até ensinar também, não isso, por aprender não, eu tenho duas filhas, o meu neto falando assim vai demorar. Então o que acontece, eu já vi lá no Balneário Gaivota, um filho de apicultor forte, falando que o pai dele falou que não adianta, que devia estudar que não adianta não vai ter futuro com a apicultura.
Eu disse: Cara, tu não está vendo, o pai tem tudo feito, vai ficar tudo pra ti!!!.
Um serviço hoje não está tanto, tem muita coisa que facilita a apicultura. O judiado é carregar e descarregar caminhão! É transportar.
É o que judia mais! Mas antigamente, no começo era muito pior, quer dizer. O material está mais leve, EPI de melhor qualidade, veículos modernos, confortáveis, estradas melhores….
Ah, deu sono, vai dormir. Tela as caixas bem teladinha, vai dormir descansa! Amanhã vai lá. Toma um banho, se alimenta nos QG.
Hoje em dia não precisa mais sofrer, mesmo assim está complicado, porque o que vamos fazer?
Como o preço oscila muito tempo. Eu quero que este meu ajudante continue, incentivo bastante, mas estou tentando fazer ele entender que não é como a gente planeja.
Hoje temos apoio do Senar, temos um cara que faz o nosso gerenciamento, a contabilidade. Aqui no programa do celular eu acesso tudo. E vejo onde tenho que cortar gastos, fechar a torneiras, investir, projeções, etc… É assim que funciona se nós hoje estamos vivos na apicultura porque estamos nos atualizando.
A despesa é muito alta, minha empresa aqui no mel picado, ajuda muito, minha filha Eduarda (Duda) é a responsável. A gente está defendendo bastante mesmo, aí a gente faz a venda de mel aqui na cidade.
Agora nós estamos estudando um meio de comprar um carrinho para ela para sair para vender, porque o meu mel daí sim, posso vender em toda a Amesc para aumentar a venda.
A Cooperativa vai ajudar muito nisso. Hoje a maioria dos apicultores, na oscilação do preço, se apavora e vende, eu não vendo não! Peguei um dinheiro da emprestado com minha filha Gabriela, comprei a safra de um sobrinho meu, o Anderson, que estava precisando vender, segurei meu mel e só vendi com preço melhor, dois meses ali neste tempo R$ 1,00 ou R$ 2,00 que ganhei por kg. Uma seguradinha que desse três meses, quatro meses já vendi com valor melhor de mercado. Claro! Não é fácil ter capital de giro e nisto que os compradores exploram nosso trabalho.
O meu produto é sempre exposto aqui na Festa do Peixe, não sei, hein, faz a Feira do Mel, temos nosso estande. Eu quero às vezes parar, mas eles vêm atrás de mim e não me deixam parar porque a gente tem a caipirinha de mel, que a gente fez aí para uma festa, aí pegou.
Mostramos o nosso Mel, não vende muito, mas sempre vem mostrando um pouco do que tem na nossa terra, bater um papo, conhecer pessoas, sempre é válido.
Fiz também Agroponte, em Criciúma, mas não achei viável, daí parei, a Associação faz, mas eu fiquei só pelo município mesmo, porque trabalho sozinho e não dou conta de produzir e vender grande quantidade, a logística fica muito complicada.
Mas aqui é quase sagrado todo ano, vem gente aqui depois da festa querendo comprar a caipirinha, mas eu só faço para o evento mesmo porque é divertido!!!! É uma coisa que não fica saturada.
Mas não é o mesmo hidromel. Na verdade eu mando o mel, aquele que pega um pouco mais de umidade no opérculo, certo? Eu mando para um parceiro lá em Morro Grande, ele faz a cachaça, misturo mel para adoçar o limão e a cachaça.
Uma curiosidade interessante é que a abelha Apis chegou no Brasil, porque ela foi importada, ela veio da Itália. Os colonizadores do Brasil, quando vieram para cá, trouxeram nas caravelas os enxames de abelhas europeias para produção de cera.
Um dos padres chegou a conclusão que as abelhas italianas são muito vadias para produção, importaram lá da África abelha africanizada que é a africana, mais violenta e mais brava que tudo. Mas ela vai produzir mais cera porque daí o Brasil começou a ser colonizado, começou a crescer. Precisava de mais cera para iluminar o território conquistado.
E teria vindo também, pouco tempo depois, nos navios negreiros, começou a expandir aqui e foi como ela, agressiva. Mas violenta foi dominando a Europeia, mas hoje tem ainda Europeia por aqui.
A abelha que trabalho hoje e africanizada ou seja é a mistura genética do cruzamento entre a italiana, que tem o tamanho maior e a africana menor, mas não combina com a nativa brasileira.
Hoje, a apicultura é profissão, mas quando comecei com meu pai, o mel preto da bracatinga, não valia nada, nada. Nós botávamos fora, lacravam, no instantinho rendia igual água e não tinha preço. Como nós morávamos em Porto Alegre, no começo, então o pai conseguiu uma fábrica de bolacha para vender este mel, mas a preço de R$ 0,20 por kg, Não valia nada.
Veja como é a vida, hoje é o mel mais caro, o mel escuro se tiver a produção de Melato hoje e se o nosso Mel vendo em um preço de R$ 13,00 o kg , o Melato vende por R$ 20,00 o kg. Ele é mais caro porque ele tem um gosto mais acentuado, o gosto do próprio o Melato, é um choro de uma cochonilha na casca da árvore, a abelha, só vai lá suga e leva para colmeia.
Se alguém for no mato embaixo de um de bracatinga vai perceber quão redor dela embaixo e tudo morto porque pinga muito mel. O Melato foi considerado, que ainda está faltando estudo sobre este tipo de mel.
Quando fui ao Chile ano passado, conheci o mel que é produzido na Costa do Vulcão, eles produzem uma quantidade pequena e mandaram estudar, fazer pesquisa e perceberam que o mel poderia ser usado no tratamento para o câncer.
O mel de Manduca lá na ocasião era US$ 25 dólares por kg, a produção deles é muito pequena, 20 colmeias, na média, não tem como produzir mais do que essa produção, elas não dão conta e vivem disso numa boa. A gente aqui com o nosso Melato seria um mel quase igual ao mel de Manduca, falta estudo. A Alemanha, França, por exemplo, só querem o mel preto, o Melato, que tem mais proteína do que o meu floral. Só que nunca ninguém foi a fundo nisso.
Nós somos deixados muito de lado ainda, estamos hoje na nossa Associação e tenho tentado colocar sangue nosso, principalmente na associação, como o David por exemplo. Porque o que acontece, temos que aprofundar mais. Esta galera nova tem que lutar, porque a apicultura tem que ser mostrada como uma lavoura, igual a lavoura de milho, soja. Nós temos o Pronaf de Apicultura, mas há bem pouco tempo tinha que tirar Pronaf de milho, por exemplo.
Já tem uma emenda dos deputados que brigam por nós lá, a coisa está mudando, tem que mudar a mentalidade, porque, hoje, se não me engano, o Brasil é o segundo ou terceiro país, mais produtor de mel e de orgânico somos únicos.
Neste evento que fui, da escolha do melhor mel do mundo, tinha uma mesa de mais de 100 metros uma quantidade gigantesca de mel do mundo todo, cheio de potes de mel, tudo pote de análise, para fazer sair o melhor mel do mundo, e ver o mel que eu trabalho ganhar, o nosso mel do Brasil se classificar, o nosso coração parecia assim… não há palavras que definam…